sexta-feira, 8 de outubro de 2010

História da Oficina Escola


Vou utilizar  este espaço para registrar um pouco da historia da oficina-escola. Na realidade,   é um corre corre, que a gente não tem tempo para anotar o que vai acontecendo. As transformações ocorrem e elas vem a partir das idéias de cada pessoa interessada na melhoria do lugar onde ela trabalha ou estuda.
                Temos muitas dificuldades, mas nós não focalizamos nelas. Temos um “porquê”. Estamos aqui e olhamos sempre para a frente com uma visão de melhorar este país e fazer uma diferença em favor dessas crianças marginalizadas. Sabemos que não vamos resolver os problemas dos milhares ou milhões de adolescentes que perambulam pelas ruas sem rumo e sem sonhos, mas podemos fazer uma diferença na vida desses próximos a nós.
                É incrível a carência de nosso povo e o quanto os nossos recursos são desviados e desperdiçados. Se a gente fosse olhar para tais problemas e ponderar sobre a magnitude deles, ficaríamos paralisados, e talvez até cínicos, perdendo os valores, achando que não tem jeito.
                São muitos jovens que já se recuperam aqui nestes três anos e meio e a marca do trabalho deles esta espalhada por todas as escolas deste município em forma de carteiras recuperadas e fabricadas, de mesas e bancos de refeitório, quadros, porta-videos e TVs, brinquedos, e até cadeiras de rodas...

Isnar Marcil Carneiro – Coordenador da Oficina.

A OFICINA ESCOLA DA SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO

Hoje, 10 de outubro de 1995, em meio a correria do dia a dia, abro este livro para registrar o que vai acontecendo nesta oficina, na sua rotina diária. É quase impossível transpor a realidade para o papel e, quase sempre a gente coloca mais aquilo que passa pela nossa cabeça ou aquilo que se deseja colocar. Nossa idéia aqui entretanto, é trabalhar com fatos e dados e nunca com achismos, é melhorar continuamente e mudar sempre as nossas ações para que possamos obter resultado diferente. Cremos que onde há fatos,  as opiniões cessam . Temos aqui uma missão coletiva, centramos em  princípios e no dia a dia, valorizamos o caráter e o desejo de aprender.

carteiras empilhadas: sinônimo do desperdício que reinava

                Iniciamos esta oficina no inicio de 1993. Chamei o José Evangélico, um servente rotulado como nó cego e começamos a trabalhar num espaço de 06 metros quadrados dentro de um galpão todo entulhado de moveis quebrados, era um cemitério de carteiras velhas e um deposito de lixo. Não se conseguia entrar nas outras salas onde estavam sepultados tornos, plaina mecânica e outras máquinas e ferramentas que restaram. Fomos descobrindo aos poucos, como que desenterrando uma por uma e notando a falta de motores e peças. É como se a coisa pública pertencesse a alguma pessoa inescrupulosas. Era de fato na cara de administração anterior que iam jogando as carteiras em cemitérios e comprando outras novas sem a preocupação de ecomiza a coisa pública. Já na reunião de transição dei a idéia de mantermos uma oficina que recuperasse as carteiras quebradas. Não consegui profissionais para começar, apenas os excluídos que se juntaram a mim para tal empreendimento, os três carpinteiros cedidos pela central de asfalto da secretaria de obras, simplesmente disseram que tal projeto não funcionaria, era um trabalho perdido. Olharam para mim como lunático. Consegui trazer o seu José Maria, um marceneiro já de idade e doente, trabalhava na prefeitura como vigia. Ele emprestou a sua furadeira manual e outras ferramentas. Logo chegou o Ademir Medina, vindo de uma comunidade religiosa do Reino Universal, para consertar 100 conjuntos escolares para a referida comunidade. Ademir estava desempregado e era muito calado. Ficou dois meses trabalhando como voluntario, sem receber ate os contratado pela empreiteira de limpeza urbana, como capinador, recebendo um salário mínimo. Tudo trabalhava contra a gente. Não tínhamos pregos, nem parafusos, nem serrote e nem martelos. Fui ao Afonso Pena e pedi algumas dessas ferramentas emprestadas. O Colégio Estadual nos emprestou uma serra elétrica que ficou com a gente uns dois meses. Já em abril, dois meses depois a Rosemeyre Tupinambá (funcionaria da secretaria de educação) exclamou meio chateada: “Isnar, você não vê esses meninos ali naquela tal de casa menino legal, nas nossas barbas, sendo preso pela polícia! Por que você não pega eles e leva para consertar carteiras? Tire esse pessoal da rua! Acabei de ouvir e fui direto para a casa menino legal. Lá eles comiam, bebiam e saiam para a rua para bagunçar. Não sei se a preocupação do povo era com os meninos ou com a bagunça que eles faziam. Ninguém reclamava da situação das meninas pobres. Todos estão preocupados com os problemas que eles geram. Não acredito ser este o caso da Rosemeyre, pois ela apontava a solução. Sentei lá na casa e fiquei observando. Não tinha idéia do que era “menino de rua” – tinha um rotulo – fiquei com medo, mas acreditava que o único remédio contra o medo era a ação contraria. Assim o fiz: pedi a dona Leia que mandasse cinco dos mais necessitados para a oficina. Neste mesmo período peguei como prioridade organizar uma Caixa Escolar em cada escola e reformar o estatuto da Caixa Unificada. A idéia era que todas as escolas pagassem as suas contas de água e luz. Essas contas eram astronômicas e ninguém preocupava – era o dinheiro público indo embora pelos ralos diversos de desonestidade.
                Os meninos chegaram: Jurandi, Vanderley, Marcos Elias, Eduardo, Claudiano...fiquei amigo deles, retiramos o medo e eles se sentiram em casa. Não os pressionamos e tudo caminhava diferente do que se esperava ou imaginava. Nenhum advogado, promotor ou juiz apontava se quer para localizar a vinda dos meninos.  Fizemos assim mesmo. Arrumamos escola pra eles e pegamos meio salário mínimo mensal pelas quatro horas diárias. A Caixa Escolar pagava o salário e a Secretaria de Educação  cada vez mais valorizava o trabalho da oficina. Conseguimos a transferência do Marcos Antonio Felipe, um ótimo soldador e técnico inigualável que trabalhava como vigia na prefeitura e havia sido excluídos anteriormente por denuncias, desvios de pneus na garagem que trabalhava. O Marquinho foi também menino e rua, morou na Fundação Caio Martins e é o responsável pelo gabarito e outras inovações técnicas da oficina.


Jurandir, Vanderley e o professor Isnar, em 1993. Em 2009, ambos retornaram à Oficina como funcionários, e o Professor Isnar, como Diretor.


Marcos Elias, da primeira turma de alunos (1993). Hoje, em 2009, é funcionário.


Jurandir, da primeira turma de alunos (1993). Hoje, em 2009, é funcionário.

                No 1º ano, José Evangélico tornou-se o símbolo da oficina, ficou conhecido como uma pessoa que se transformou , e já tinha auto-estima. Amélia Passos, apesar do seu trabalho na prova com a Alfabetização de Adultos, dedicava grande parte de seu tempo educando os meninos, visitando suas famílias, conseguindo alimentação e escolas para eles. Jurandi se tornou também uma figura folclórica, e símbolo de uma recuperação palpável. Mais meninos foram chegando. Outros funcionários se juntaram a nós, maquinas foram compradas e o volume de móveis recuperados e fabricados se avolumava a cada dia, mês e ano, hoje, já contabilizamos mais de 16.000 peças recuperadas e fabricadas. Móveis para televisão e vídeo, quadros de aviso, mesas de refeitórios e bancos, cadeiras de rodas, placas de cemitério, jogos, balcões, quadros de vídeos. A oficina tornou o quebra galho de todos os setores da prefeitura e o símbolo de eficiência dentro de um serviço público já rotulado como ineficiente.

José Evangélico

Começamos a admitir dentro dos princípios da qualidade total priorizando a participação de todos nas decisões e valorizando as idéias de cada um. Todos se sentiam responsáveis. Organizamos palestras semanais pra todos sobre os mais variados assuntos e sem ônus para a prefeitura.
A administração do cemitério pediu-nos para fabricar 5.000 placas com hastes para identificar as covas e catatumbas. O velho seu Rosalino Felipe, pai do Marquinho era soldador e trabalhava como vigia para a prefeitura. O Marquinho o convidou para fazer hora extra aqui confeccionando as referidas placas , seu rosa era visto como o símbolo da bondade alegria e paciência. Servia de exemplos para todos nós – isto era repetido constantemente, infelizmente ele acabou fabricando a placa de sua própria sepultura – aquilo que a gente falava por brincadeira acabou se tornando realidade. “ qual será a sua seu Rosa? Ele respondia com um sorriso. Faz um ano que morreu e todos choramos amargamente. Hoje a oficina tem o seu nome. No ano passado chegou o Valdir, e antes veio o Geraldo do Carmo, carpinteiro, sempre alegre e parte da família. O Geraldo Ressurreição, Tiazinho, é um trabalhador exemplar e dedica ao acabamento final dos móveis. Todo mundo gosta dele do seu jeito calado, simples e responsável. Nunca alguém o escutou falando mal de um colega.
Em 1994 conseguimos a contratação de alguns funcionários através da empreiteira ARG: Ademir Medmias, Edvaldo Magalhães, Oliver, Ricardo, Sidney, Ubiratan, Wilson e Givanildo. Sidney e Givanildo trabalhavam como menores e quando completaram 18 anos continuaram aqui. O Jurandi e outros meninos foram trabalhar em firmas da região e sendo elogiados como ótimos funcionários. O Marco Elias, tornou-se também um símbolo de recuperação total. Hoje é nosso pintor.
Alem de fabricar e recuperar os mais diversos moveis, o pessoal da oficina transporta cadeiras para os eventos e para os cursos da Divisão Pedagógica da Seed. Foi assim, precisando de mais funcionários nas épocas de mais demanda de carteira, apelamos para o 3º turno da maneira que conseguimos atender a todos os pedidos que nos foram dirigidos.
Incrementamos novos programas, o motorista do caminhão, o Rocha organizou um time de futebol e todos os sábados pela manhã estavam num dos campos de Betim com a meninada toda correndo atrás da bola.
Outra atividade muito positiva foi o coral da oficina – A Alice e Heloisa da Seed vinham e ensaiavam com os meninos uma vez por semana. Depois chegou Jairo, um baiano, super musico que fez a oficina brilhar no desfile de 07 de setembro e em outras apresentações.
A fama bateu a porta desta oficina o que não nos ajudou. 1º foi o jornal local “O Tempo” da oposição ao Governo. Acabou dando mais ênfase ao trabalho que os próprios jornais da administração municipal. Depois o “Estado de Minas” deu um destaque especial e logo em seguida o jornal “O Globo” publicou dois artigos em sua edição dominical. Em abril três emissoras de televisão esparramaram por Minas e pelo Brasil as novas atividades. Foi bom, por um lado, porque outros copiaram a idéia, mas por outro, não tínhamos tempo para atender a curiosidade de todos.
De 13/05 a 04/06 participei da 2º missão brasileira de educador aos Estados Unidos, foi uma viagem maravilhosa e, por coincidência fui para a universidade da Pensilvânia, na enorme região onde vivi 08 anos há 22 anos. Não é possível relatar as emoções que senti ao ver aqueles lugares e encontrar tantos amigos. Visitando uma escola de 2º grau em ????, um senhor olhou para mim e disse: “Isnar, o que esta fazendo aqui? Eu estava entrando no elevador e ele estava passando pelo corredor, olhei para ele e disse: “John Prosperi, pelo amor de Deus, é você? Ou é um espírito? Ele disse: “ estou com uma lista de endereços de todos os nossos colegas do Saint France Seminary, Joe Drop esta organizando um reencontro depois de 22 anos e esta marcado para o dia 04 de julho próximo”, aqui esta o seu nome e seu endereço”. Conversamos muito, fomos almoçar no refeitório da escola e depois ele foi a States College e me levou até Duquesne para encontrar com Padre Denis Colomarino. Foi uma festa, dormi na casa paroquial e encontrei com outros ex colegas. O Padre Colomarino ficou de mandar roupas e sapatos para o pessoal da oficina. Já mandou algumas caixas, a maior parte era para crianças e mulheres. Distribuímos para as famílias dos adolescentes e algumas caixas entregamos para o grupo pão e leite da Igreja são Francisco de Assis, Betim.
A vida na oficina foi mudando, fizemos galpões improvisados, muitas hortas e planejamos plantas mudas para distribuir nas escolas, tivemos fartura de ovos de nossas galinhas caipiras criadas junto com os patos. O espírito de uma família e não e uma fabrica. Ficamos satisfeito com os resultados mas tentamos melhorar continuamente.
Estamos num processo de construção e uma cozinha com fogão a lenha e um forno grande onde a gente possa fazer bolos e mudou um pouco os hábitos alimentares do pessoal, baseados em pão branco todos os dias pela manhã e a tarde. A nossa intenção é que os meninos aprendam a arte culinária.
A cultura masculina da oficina foi mudando aos poucos como a chegada da dona Ana e dona Consolação que trabalhou na cozinha, faz uns três meses que a Marilene veio pena cá com a função de secretaria, acabou fazendo tudo, mudou o aspecto do nosso refeitório, trocado os cartazes velhos e renovando os nossos arquivos e pastas.
Já no final do mês passado entramos em crise e tudo parecia que ia desabar, é que os 8 adultos contratados pela ARG foram despedidos rapidamente e ninguém conseguia entender nada. De uma hora para outra o contrato venceu e não se sabia quando seria feito outro, o pessoal ficou triste e desanimado. Alem disso foi em mãos de muita quebração de carteira em algumas escolas e parecia que a gente conserta, fabricava para os outros destruírem.
O Marquinho que assumia a coordenação dos trabalhos, entrou de férias no início deste mês, juntamente com Geraldo. Fizemos, então um plano de emergência para o mês de outubro, do dia 09 ao dia 31 – planejamos fabricar 2100 cadeiras nos 14 dias úteis que nos restavam, paralisamos todos os trabalhos fora do padrão e treinamos soldadores entre os adolescentes , começamos um sistema de avaliação diária e distribuímos responsabilidades para cada processo. A Marilene ficou na coordenação observando para que cada meta fosse cumprida e que os problemas surgidos fossem resolvidos a partir das causas. Ela começou a participar do curso de melhoria continua que estamos oferecendo lá na escola M. Lucia Farage. Na semana passada falamos sobre a historia da qualidade total, os conceitos de processo, produto, cliente e característica da qualidade, discutimos também o sistema tradicional e moderno de gerenciamento, assim , vou poder ficar menos tempo aqui na oficina e dedicar mais ao projeto de melhoria continua da educação, do qual sou coordenador.
Este livro servirá então, para que a gente possa anotar  o que vai acontecendo no dia a dia para que se tenha fatos e dados na solução dos problemas.
A oficina tem um conselho e solução e prevenção de conflitos composto por 06 funcionários. Esta é uma idéia que funciona com êxito numa escola americana que visitei em maio deste ano, as atividades deste conselho serão registrados neste livro, em outro colocaremos fotos e recortes que dentrarão  os acontecimentos e realizações desta organização, turma que pretende recuperar moveis e pessoas, com base em princípios tendo uma visão coletiva, um sonho e uma missão.
Parei de escrever no dia 10/10/95 e dediquei quase todo o meu tempo na coordenação do Programa de Melhoria Continua da Secretaria de Educação.

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